MATERIAL DE APOIO · MD
Roteiro para construir seu conto
Exemplo preenchido, ficha adaptável e decisões de personagem e cena.
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Salve uma cópia deste texto, substitua a ficha pelo seu projeto e mantenha separado o rascunho do conto. Os campos ajudam a tomar decisões; podem ser preenchidos depois de escrever. Não há tamanho ou sequência obrigatória.
Exemplo preenchido: A caixa 17
Deslize a tabela para comparar as colunas →
Decisão | Escolha e motivo |
|---|---|
Pessoa e desejo | Joana quer fotografar um mapa para o aniversário da mãe |
Resistência | O cadastro está errado e ela evita admitir isso |
Duas opções | Procurar sozinha, arriscando o prazo; pedir ajuda, arriscando o julgamento |
Recorte | Uma sala durante uma mudança; mãe por mensagens |
Ponto de vista | Terceira pessoa limitada em Joana; Rui não tem pensamentos expostos |
Informação decisiva | Pasta larga deixada junto à janela; registro de transferência para B |
Mudança observável | Fornece a descrição, reconhece a falha e coopera |
Encerramento | Ajuda a carregar e aceita a direção de Rui; nenhuma cura definitiva é declarada |
Ficha para adaptar
- Pessoa, situação e desejo:
- Por que o resultado importa:
- Competência, vulnerabilidade e contradição:
- Duas opções e o custo de cada uma:
- Lugar e objetos que afetam a ação:
- Quem narra e quais pensamentos conhece:
- Acontecimento inicial:
- Tentativa e resposta:
- Escolha que altera a situação:
- Consequência e imagem final possível:
- Informação que precisa aparecer antes da solução:
- Fato externo a pesquisar e fonte pertinente:
Cartão de cena
Duplique para cada cena necessária, sem transformar cada linha em uma cena artificial.
Deslize a tabela para comparar as colunas →
Campo | Seu texto |
|---|---|
Situação ao entrar | |
O que alguém tenta | |
Resistência ou resposta | |
Informação nova | |
O que muda ao sair | |
Quem percebe o momento | |
O que pode ser resumido |
Pequena variação para praticar
Troque o desejo externo: Joana quer evitar que a mãe veja um erro no mapa. Agora encontrar a pasta não basta; ela precisa decidir se altera uma lembrança alheia. Liste quais falas, consequências e final teriam de mudar. Alterar apenas a frase da premissa não transforma o conto inteiro.
Transformar um assunto em uma premissa
“Memória” é um assunto; “uma voluntária precisa encontrar um mapa que ela mesma cadastrou errado” é uma situação narrativa. A premissa coloca alguém diante de algo que pede uma resposta. No conto, recuperar o papel seria fácil se Joana pedisse ajuda; o interesse vem de ela preferir parecer competente.
Experimente escrever: alguém quer algo, encontra uma resistência e precisa escolher como agir. É uma ferramenta de descoberta, não uma frase que precisa aparecer no texto. “Um cozinheiro quer repetir a receita do pai, mas ninguém concorda sobre o ingrediente principal” também gera possibilidades: ceder, experimentar, perguntar ou abandonar a disputa.
Não coloque toda a biografia na premissa. Identifique o ponto em que uma decisão pode mudar a situação. Um conto contemplativo pode trabalhar uma percepção em vez de uma busca externa; ainda assim, vale saber qual experiência você quer tornar perceptível.
Dar ao desejo uma consequência concreta
Joana quer uma fotografia antes da mudança. O mapa não vale apenas como objeto: guarda uma lembrança compartilhada com a mãe. O prazo das cinco torna a busca urgente, mas não ameaça uma vida. A intensidade de uma história não depende de aumentar artificialmente o perigo.
Separe desejo declarado e necessidade que você, como autor, enxerga: Joana pede uma foto; sua dificuldade é aceitar ajuda sem sentir que perdeu valor. Ela não precisa dizer “preciso aprender a confiar”. Isso aparece ao esconder o tamanho da pasta e, depois, fornecer a informação.
Para sua personagem, escreva o que ela tenta obter e o que perde caso fracasse. Troque “quer ser feliz” por uma ação observável, como “quer que a irmã aceite almoçar com ela”. O desejo pode mudar durante o conto; mostre o acontecimento que o muda.
Construir uma pessoa além de uma ficha
Saber a cor favorita de Joana não resolve a cena. Saber que ela insiste em demonstrar competência explica por que procura sozinha. O traço comprido do sete individualiza a personagem e também permite reconhecer a própria anotação: o detalhe trabalha em duas frentes.
Esboce uma competência, uma vulnerabilidade e uma contradição. Joana conhece a história do mapa, teme parecer descuidada e piora a busca justamente ao ocultar o que sabe. Rui pode ser colaborativo sem virar um assistente perfeito: sua resposta prática deixa Joana sem a absolvição imediata que deseja.
Evite transformar profissão, origem ou diagnóstico em personalidade inteira. Pessoas do mesmo grupo respondem de maneiras distintas. Se acrescentar uma característica, pergunte em qual escolha, percepção ou relação ela aparece. Detalhes sem função podem permanecer nas suas notas, sem precisar entrar no conto.
Criar resistência sem inventar um vilão
A pasta fora do lugar é um obstáculo. A tensão entre pedir ajuda e preservar a imagem é o conflito de Joana. Rui não precisa sabotar nada para a conversa ter atrito: ele pede uma medida útil, ela responde de um modo que protege seu orgulho.
Desenhe duas opções com custos diferentes. Se Joana continua sozinha, pode perder o horário; se reconhece o erro, arrisca o julgamento de Rui. A decisão torna-se interessante porque não há solução que preserve tudo exatamente como estava.
Se todos os impedimentos forem acidentes sem relação com a personagem, o conto pode parecer uma fila de azares. Escolha pelo menos uma dificuldade que se agrave ou se transforme por causa de uma ação. Isso não obriga todas as histórias a ter antagonista, discussão ou vitória.
Escolher um recorte que cabe num conto
O exemplo acompanha uma busca numa sala. A mãe participa por mensagens; não precisamos encenar toda a história do bairro. O recorte permite desenvolver uma mudança pequena até o fim, em vez de resumir uma vida inteira.
Para começar, escolha um acontecimento central, poucas pessoas necessárias e uma consequência que o texto consiga mostrar. Isso é uma proposta de exercício, não uma definição universal de conto. Uma narrativa curta pode atravessar décadas se a seleção for clara.
Se sua ideia contém guerra, três famílias e quatro gerações, experimente a cena em que alguém decide guardar ou queimar uma carta. O universo maior pode pressionar esse momento sem receber uma enciclopédia. Quando uma subtrama não altera a decisão central nem produz um efeito importante por si, considere guardá-la para outra história.
Ligar acontecimentos por consequência
Uma ordem temporal diz que algo aconteceu depois de outra coisa. Uma relação causal explica por que a situação mudou. Joana omite o tamanho da pasta; por isso Rui não consegue orientar a busca. A mensagem da mãe recupera a lembrança do papel largo; isso ajuda Joana a corrigir sua resposta. Com a informação, Rui encontra o registro pertinente.
Faça um resumo de cada virada usando “porque”, “mas” ou “por isso”. No exemplo: a pasta não aparece, mas Joana evita admitir a falha; por isso procura caixas vizinhas; a lembrança enfraquece sua desculpa; então ela pede ajuda. Os conectivos são um teste das relações, não palavras que precisam preencher cada parágrafo.
Nem tudo precisa ser causal: uma coincidência pode iniciar um conto. O problema aparece quando a solução decisiva depende apenas de sorte e torna as escolhas anteriores irrelevantes. Se Rui encontrasse o mapa por acaso antes da confissão, teríamos outro efeito e precisaríamos repensar o final.
Fazer uma cena mudar alguma coisa
Uma cena acompanha ações num lugar e intervalo reconhecíveis. Ela pode alterar uma relação, uma informação, um objetivo ou apenas a interpretação de algo. Em S05, Joana ainda tenta controlar a busca; quando Rui pede o tamanho e ela responde “comum”, o leitor percebe uma recusa de ajuda disfarçada de informação.
Use quatro perguntas para esboçar: o que está em jogo agora; o que alguém tenta; como o outro ou o ambiente responde; o que fica diferente. “Joana procura” é pouco específico. “Joana tenta obter o mapa sem revelar o erro; Rui oferece ajuda; ela responde mal; a busca continua travada” permite escrever ações.
Uma cena quieta pode mudar muito. Alguém não enviar uma mensagem pode alterar uma relação inteira, desde que saibamos o que essa omissão significa. Não acrescente briga ou explosão apenas para cumprir um molde.
Decidir o que encenar e o que resumir
Encenar dá espaço à sequência de gestos, falas e reações. Resumir atravessa um intervalo com menos palavras. Em S05, as caixas 16 e 18 recebem uma lista curta; a resposta sobre a pasta recebe fala direta. A busca repetida importa menos que a decisão de esconder uma informação.
Compare: “Ela procurou durante meia hora” e “Abriu outra caixa. Atas. A seguinte: cartazes. O relógio continuava andando.” A segunda versão dá textura à repetição; não é automaticamente melhor. Se o conto precisa chegar logo à conversa, o resumo pode cumprir melhor sua função.
“Mostrar, não contar” não é uma proibição de resumo. Reserve detalhe para experiências que o leitor precisa viver de perto. Comprima transições e repetições quando a compressão não apagar uma mudança importante. Uma biografia em resumo também pode criar um efeito forte se esse for o projeto do texto.
Fazer o lugar participar da ação
A fita amarela, as caixas fechadas e o armário bloqueado fazem a mudança existir materialmente. Não é preciso escrever “a sala estava um caos”. Os objetos criam tarefas e obstáculos: Rui segura a fita, o rolo cai, duas pessoas precisam alcançar a pasta.
Escolha detalhes que a personagem notaria naquele momento. Joana procurando um papel observa números e etiquetas; alguém preocupado com uma infiltração talvez veja primeiro a parede úmida. A descrição pode revelar o objetivo sem explicá-lo de novo.
Faça um teste: troque a sala por uma praia mantendo todo o resto. Se nada precisar mudar, talvez o lugar esteja funcionando apenas como cenário genérico. Isso não significa que cada objeto deva virar pista. Alguns dão orientação ou atmosfera; evite acumular detalhes que competem com a ação central.
Escrever falas que fazem alguma coisa
“Você mudou alguma pasta de lugar?” pede informação e desloca a suspeita para Rui. “Só as que não cabiam” responde com um critério prático. As falas funcionam porque cada pessoa tenta algo, mesmo sem discurso dramático.
Para revisar, escreva ao lado de cada fala um verbo de intenção: sondar, evitar, pedir, corrigir, consolar. Você não precisa usar esses rótulos no conto. Se duas falas consecutivas apenas repetem a mesma informação, combine-as ou faça a segunda mudar a relação.
Voz não depende de bordões. Joana contorna o assunto; Rui pede dados concretos. O contraste surge da maneira de responder. Leia a conversa em voz alta para perceber frases difíceis de acompanhar, mas não transcreva todos os tropeços de uma conversa real. Marque a troca de falante com parágrafos e mantenha aspas ou travessões de forma consistente.
Tornar o não dito compreensível
Em S07, Joana quer ouvir que o erro não importa. Rui pergunta onde ela deixou a pasta. A resposta não declara perdão nem ressentimento. Ela mantém o foco na solução, enquanto o desejo de Joana revela sua vergonha. Essa diferença entre o que se pede emocionalmente e o que se recebe torna a conversa mais rica.
Compare “Rui estava muito decepcionado” com “Rui pousou a fita, sem responder”. A segunda frase deixa margem de interpretação; sozinha, não prova decepção. Não trate um gesto isolado como dicionário universal de emoções.
Subtexto precisa de contexto. Se você retirar o erro de cadastro e a resistência de Joana, a mesma pergunta vira logística comum. Faça a inferência caber nas informações disponíveis. Quando leitores não entendem uma passagem importante, acrescente um apoio concreto antes de explicar toda a emoção em voz alta.
Separar a ordem dos fatos da ordem de leitura
Na cronologia, Joana ajudou a mãe com o mapa, recebeu a doação, anotou mal e depois procurou a pasta. Na leitura, começamos pela ausência; só então descobrimos o cadastro e a memória doméstica. Essa ordem cria perguntas antes das respostas.
S04 começa com “Ela se lembrou da tarde da doação”. S06 parte de uma mensagem atual para recordar o papel largo. S07 devolve a ação à conversa com Rui. Os sinais tornam a passagem de tempo compreensível sem exigir uma data em cada parágrafo.
Faça duas listas: fatos em ordem de ocorrência e trechos em ordem de apresentação. Se uma lembrança interrompe uma cena urgente, pergunte o que ela muda ao voltar. Aqui, a memória traz o tamanho da pasta e a razão afetiva da busca. Uma lembrança que só repete informação pode ser encurtada ou deslocada.
Referências
- Personagem e conflito
- Revelar a personagem
- Desenvolver subtexto
- Diagnosticar a revisão
- Construir vozes no diálogo
- Organizar tempos narrativos
- Lugar e tensão
Fontes conferidas em 2026-09-26.